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PROJETO

2016 é o ano do bicentenário do nascimento de D. Fernando II. Fernando de Saxe-Coburgo e Gotha (1816-1885), ao adquirir as ruínas do Mosteiro Jerónimo de Nossa Senhora da Pena, com a colaboração do Barão de Eschwege (1777-1855), constrói em 1838 o Palácio Nacional da Pena e um Parque com 85 hectares. Em conjunto e total simbiose, integram há 20 anos a Paisagem Cultural de Sintra, inscrita pela UNESCO como Património Mundial, representando o maior marco na arquitectura romântica em Portugal. D. Fernando II –  ao qual foi atribuído o cognome de rei artista – foi um dos mais importantes mecenas de Arte em Portugal. Conhecido como coleccionador, não apenas no panorama artístico, mas igualmente de exemplares de flora de todos os cantos do mundo (florestas nórdicas, Austrália, Nova Zelândia, América do Norte, Brasil…), transformou Sintra, paisagem rural e de pouco coberto arbóreo, no cenário que hoje encontramos, tornando o Palácio Nacional da Pena e o seu Parque numa instalação criada pelo Homem em permanente diálogo com a Natureza pré-existente.

“Point of View” surge da expressão Point de Vue, utilizada na arquitectura paisagista, relacionando-se directamente com o conceito de perspectiva. Pretende estabelecer uma visão contemporânea (mas atemporal) sobre o binómio Homem/Natureza e, ao mesmo tempo, um diálogo cultural entre ambos, diálogo, este, estabelecido a priori por D. Fernando II, aquando da criação de um projecto onde Arte/Arquitectura/Natureza se interpenetram. Numa premissa de continuidade desse diálogo, “Point of View” reúne no Parque do Palácio Nacional da Pena, 10 artistas nacionais e internacionais  – Alberto Carneiro (PT), Alexandre Farto/Vhils (PT), Antonio Bokel (BR), Bosco Sodi (MX), Gabriela Albergaria (PT), João Paulo Serafim (PT), NeSpoon (PL), Nils-Udo (DE), Paulo Arraiano (PT) e Stuart Ian Frost (UK) – para uma exposição in situ comissariada pela Parques de Sintra.

Ao partir do pressuposto histórico e conceptual de D. Fernando II, “Point of View” dá continuidade a um diálogo pré-estabelecido culturalmente mas com uma perspectiva do agora; uma reflexão em que a paisagem cultural e natural não são linguagens opostas, mas complementares, tal como as dicotomias claro/escuro, interior/exterior, material/imaterial. Ao transportar este discurso para o contexto expositivo, engendra-se essencialmente um diálogo íntimo, entre Natureza e Cultura. Esta deslocação intencional visa jogar com a ideia de criação na condição da origem remota e seminal, procurando, com isso, alimentar o nosso desejo de uma linguagem universal, uma estrutura inteligível capaz de espelhar o inconsciente colectivo numa era saturada de interfaces e satélites – tecnológicos, artificiais –, devolvendo uma experiência emotiva e contemplativa ao universo da representação visual.

Neste diálogo – Homem/Natureza – questiona-se um momento, uma época, onde, de certa forma, paira inquietude de quem habita um espaço do qual não se pode apreender o todo, onde a velocidade é proporcional ao esquecimento, gerando uma condição que nos leva a reinventar a forma como lemos e interpretamos a realidade e na qual se debatem novas formas de diálogo, relações humanas e processos de contemplação, assim como a relação com elementos pré-existentes ao Homem. Questiona-se também uma sociedade dita contemporânea, controlada por satélites artificiais, onde a velocidade da geração do post-digital dita o tempo, e substitui de uma forma artificial o mundo natural/analógico. O frequente scroll à realidade pela procura de “novas histórias”, onde se perde a referência à contemplação, contribui cada vez mais para o afastamento do ser humano ao elemento Natureza.

Neste contexto, dez artistas trabalham como agentes de re-conexão e diálogo entre o binómio Homem/Terra (conceitos que na sua essência são o mesmo, embora uma noção pouco presente na sociedade dita contemporânea), através de um processo de acupunctura geográfica, criando, assim, diferentes diálogos in situ com um organismo vivo. “Point of View” pretende desta forma celebrar e relembrar essa correlação e colaboração iniciada por D. Fernando II em 1838, após a criação de um ponto nevrálgico para património cultural da humanidade.

Diretor Artístico - Paulo Arraiano

Quando refleti sobre esta contextualização do projeto “Point of View”, concluí que era inevitável sublinhar as razões óbvias, mas extremamente significativas, que estão na base deste cometimento.

O primeiro objetivo deste projeto foi criar um evento exclusivo de homenagem com vista à celebração do bicentenário de D. Fernando II, o criador visionário do Parque e Palácio Nacional da Pena.

O segundo objetivo foi o de reavivar a intenção original do Parque da Pena – a potenciação da relação entre o Homem e a Natureza – potenciando, assim, uma experiência mais autêntica e enriquecedora para os visitantes da Pena, guiando-os para as zonas mas recônditas dos jardins de D. Fernando II.

O propósito do projeto foi trazer um novo enfoque ao Parque da Pena, tanto a nível nacional como internacional, partindo da base histórica da Pena e combinando-a com uma exposição única de arte contemporânea. Cria-se, desta forma, um novo discurso, alavancando tanto os ideais e valores que definem Sintra como Paisagem Cultural como o potencial deste local como “contador de histórias”.

O conceito envolve a criação de uma série de instalações site specific, estrategicamente colocadas ao longo dos ecléticos jardins. Tal permite que os visitantes explorem, não só, as características únicas do Parque, bem como apreciem a rara e preciosa flora trazida dos quatro cantos do mundo, a pedido de D. Fernando II. A seleção dos artistas teve em consideração vários aspetos, para além do fator óbvio que é a experiência de cada artista. Teve-se em conta o facto de cada artista trabalhar em torno da relação Homem vs. Natureza (denominador comum que une este grupo de indivíduos), bem como o seu contexto cultural (respeitando e honrando o multiculturalismo e ecletismo de que o Parque e Palácio Nacional da Pena são representativos).

Diretora de Projeto - Sofia Barros

Projeto

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