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PARQUE DA PENA

Idealizado por um príncipe originário da Europa Central, que se tornou rei-consorte de Portugal sob o nome de D. Fernando II, o Parque da Pena, assim como o Palácio, transformaram radicalmente a paisagem de Sintra no que hoje conhecemos e que a UNESCO classificou de Património Mundial em 1995.

 

Iniciado em 1839, a partir da remodelação das ruínas de um mosteiro jeronimita abandonado com uma extensa cerca envolvente, o Parque e o Palácio da Pena resultou numa obra épica, única e global, ao nível dos grandes parques românticos europeus. Reconhecida como a expressão máxima do Romantismo em Portugal, a Pena é a concretização do conceito de retiro de D. Fernando II, Rei-Artista, evocando as suas referências de infância como os Parques de Wörlitz, Muskau e Rosenau. Subordinados à corrente romântica em voga na Europa, estes grandes parques românticos do século XIX materializavam a natureza no seu estado pristino, aprimorada por penhascos, cascatas, vegetação exuberante e templos dispersos pelos jardins.

 

Havia surgido uma nova mentalidade, na Europa, que valorizava o contacto próximo com a natureza e, juntamente com ela, o conceito de parque como um local em que a experiência de proximidade com o mundo natural era possível. Os parques eram lugares que convidavam ao regresso às origens da identidade do Homem, por via da deambulação. Neles não havia, por isso, lugar à simetria, à ordem ou às linhas retas e o crescimento natural da vegetação era encorajado. William Gilpin (1724–1804), criador do termo “pituresco”, descreve, na sua obra “A Dialogue upon the Gardens at Stowe”, que um parque devia ser artisticamente desenvolvido de forma a que a natureza pudesse crescer na sua configuração selvagem. Na sua obra “Andeutungen über Landschaftsgärtnerei” (Sugestões sobre Paisagismo), o Príncipe Hermann von PücklerMuskau (1785–1871), criador do Parque de Muskau e autor de um vasto conjunto de reflexões sobre esta nova filosofia paisagística, faz o elogio da “natureza livre, mas na sua forma mais nobre” e define a sua ideia de perfeição, na conceção de um parque: “um parque perfeito, ou, por outras palavras, um que tenha sido idealizado através da Arte, deve, tal como um bom livro, despertar pelo menos tantos pensamentos e sentimentos quantos os que revela”.

 

Os parques eram, assim, espaços nos quais o Homem devia deixar-se perder, para depois se reencontrar, por via da sua sensibilidade e intuição. De acordo com o criador de Muskau “os caminhos são os guias silenciosos do viandante e devem servir para conduzi-lo, sem esforço, a descobrir todos os prazeres que o lugar tem para oferecer”. Esses “guias silenciosos”, em associação com outros elementos de paisagem quase subliminares, tais como pontos de vista, elementos arquitetónicos e recantos, estimulam a curiosidade do visitante e levam-no a percorrer as principais vias do parque, perdendo-se no seu interior. A água, por seu lado, era tida como “a alma da paisagem”, isto é, como elemento catalisador da introspeção e de clarividência do caminhante que, assim, por fim, se reencontra.

 

Segundo Hirschfeld, que, em 1797, cunhou o termo “Romântico”, a principal qualidade de um jardim é, por outro lado, a sua capacidade para despertar emoções, realizadas através do movimento pelo espaço. À medida que se percorre os caminhos, os cenários desenvolvem-se e evoluem, despertando uma sucessão de emoções diferentes. Numa tal viagem, a Pena propõe-nos a descoberta de recantos e edifícios enigmáticos, enquadrados por uma diversidade de cenários paisagísticos, constituídos, por sua vez, por exóticas coleções botânicas e composições florísticas reminiscentes de lugares distantes. Em aparente desordem, surgem locais de beleza surpreendente, como que escondidos por um véu que se entreabre para que o eleito os possa descobrir (a “beleza velada”, ou “die verschleierte Schönheit”) e bosques escuros que suscitam temores primordiais (“der Walddunkel”) evocando, cada um destes cenários, sentimentos diferentes.

Parque da Pena

17:00